O futuro da MPB
Zeca, 4, filho do casal - vestindo blusa branca e saia bege (uniforme da penitenciária), o garoto entrou no plenário por volta das 14h. Tinha o cabelo dividido ao meio, em duas tranças. Em depoimentos à polícia, cobria o rosto com o cabelo. Aparentemente abalado, e em meio a choros, Zeca se mostrou arrependido, acusou o namorado e disse que foi persuadido e iludido por ele.
Disse ao juiz que no começo do namoro, há cerca de três anos, era bom o relacionamento de seus pais com Lucas, mas que o rapaz se transformou em uma "obsessão" porque queria estar ao lado dele todo o tempo. Foi então, que a mãe começou a limitar o relacionamento.
No entanto, afirmou que "os problemas começaram este ano", quando disse a Paula que dormiria na casa de uma amiga e foi para um motel com o namorado. A mãe descobriu. Passou a dizer que Lucas era uma "má influência" e proibiu que mantivessem contato. Entre abril e maio, o acusado disse que ele e o irmão, Tutty, 25, foram obrigados a "cortar relações" com Lucas, segundo seu depoimento.
"Aquilo para mim foi um choque muito grande", disse à Justiça.
Contou ao juiz que ficava fascinado com a liberdade que encontrava na casa do namorado. "Na casa do Lucas podia tudo", disse, afirmando que em sua casa eram muitas as restrições.
No Dia das Mães, Zeca discutiu com os pais porque queria ver o namorado. Disse que Caetano deu um tapa em seu rosto durante a discussão. Afirmou ter sido a única vez que foi agredida em casa. Nervoso, seguiu para a casa de Lucas e disse que não queria mais retornar para sua casa. No entanto, percebeu que não teria como "fugir".
Apesar da proibição, os namorados se encontravam escondidos e em julho, quando Caetano e Paula viajaram, Lucas passou o mês na casa dos Veloso.
De acordo com Zeca, naquele mês, "as coisas foram como um sonho". "[Lucas] foi me seduzindo e mostrando que ficar ao lado dele, sem meus pais, era a felicidade", afirmou ao juiz.
Lucas contou a Zeca, segundo seu depoimento, que estava interessado em adquirir uma arma para matar o casal. O garoto disse que "odiou" a possibilidade. Disse também que Lucas deu a ela duas opções: ficar com ele sem os pais (Caetano e Paula) ou ficar com os pais sem o namorado.
"Ele me prometeu um mundo encantado", disse, afirmando que preferia ficar com o namorado sendo aceito pelos pais.
Quando acabaram as férias, porém, "tudo voltou a ser como antes", disse. Ou seja, Zeca foi proibido de ver o namorado. "Ficar sem ele depois daqueles 30 dias era quase impossível", afirmou durante interrogatório.
Zeca e Lucas teriam planejado viajar para Porto Seguro (BA) enquanto os pais estavam fora. Preferiram, segundo ela, ficar na casa dos Veloso.
O garoto disse à Justiça que, em agosto, Lucas disse que o irmão havia conseguido uma arma e pediu o dinheiro que não foi gasto na viagem. A arma, no entanto, não teria sido comprada.
"Só que dava muito medo", disse, sobre o plano de assassinar os pais.
Zeca disse que amava muito os pais, mas que, por outro lado, tinha o namorado. Afirmou que Lucas a incentivou a fumar maconha e falava para que não ficasse preocupada e não deixasse que as pessoas percebessem seu nervosismo.
Em outubro, o garoto disse para a mãe que havia acabado com o namoro. "Ela ficou muito feliz", disse. Lucas era, para Paula, um "tormento", de acordo com Zeca.
No mesmo mês, Lucas contou a idéia para assassinar o casal, segundo depoimento do garoto. "Disse o que eu teria que fazer".
Na tarde de 30 de outubro, Zeca disse que foi ao shopping com o irmão e o namorado. Ficou sabendo, então, que o crime ocorreria naquela noite. Combinaram de levar Tutty a um cibercafé, para tirá-lo de casa.
"Não queria que meus pais morressem, mas era tarde", disse, afirmando que, enquanto o casal era assassinado, ficou na biblioteca, cobrindo os ouvidos com as mãos e chorando.
Antes de encerrar seu depoimento, Zeca voltou a demonstrar arrependimento e afirmou que agora percebe que "pai e mãe são tudo" e que "sempre têm razão no que falam".
"Só imaginava que tudo iria ser perfeito. Só que esse mundo encantado nunca existiu", disse.